CRPGs – O que é, e como são os RPGs de Computador?

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“Bem, isto é uma clara extrapolação do escopo do blog” eu pensei, mas então lembrei que já fiz um artigo sobre Dispatch e várias outras recomendações de games para os nosso FCs. Então, porque não falar do último hiperfoco meu aqui? Já que nesses últimos meses eu estava maratonando os jogos da Trilogia Shadowrun, Warhammer 40k: Rogue Trader e agora, Pathfinder: Wrath of the Righteus.

Então, vamos começar com uma pergunta simples:

Afinal, o que é um CRPG?

A sigla significa “Computer Roleplaying Game.” Era simples de explicar nos velhos tempos de jogos de jogos como Ultima, Wizardry, e o vovô do gênero como conhecemos: os Dungeon Crawlers que muitas vezes tinham a própria linçenca de D&D. Isso por que “RPG” na época era claramente aquele hobby estranho de reunir amigos no porão para brincar de faz-de-contas com regras e dados (e convocar demônios, de acordo com os pais).

Mas com o tempo, RPGs eletrônicos foram se afastando da fórmula tradicional e ficando mais populares que o RPGs de mesa (no Japão, RPGs foram introduzidos pelo computador, gerando um gênero completamente diferente, JRPGs!). A sigla acabou sendo sinônimo de “jogos onde você tem stats, level up, e tem que matar bicho e pegar loot com sua espada ou magia.” O que não está errado, mas o roleplaying acabou ficando em segundo plano.

Um desses jogos eram Diablo, que tinha perspectiva isométrica com combate em tempo real total, onde você joga com um personagem badass que invade tumbas e chuta bundas de demônios! O jogo tinha claras inspirações em Dungeons & Dragons, tanto que uma pequena equipe na época pensou “e se a gente pegasse esta fórmula, mas fizesse ser baseado em um grupo de aventureiros, com regras vindo direto do AD&D 2ª Edição?” Fazendo alguns ajustes, como adicionar a pausa tática para poder gerenciar um combate de grupo, além de licenciar o sistema e o cenário de Forgotten Realms, veio… Baldur’s Gate! 

E também na época, um certo Fallout, que deveria ser um jogo baseado no sistema GURPS.

Tá mas... quanto a pergunta?

No geral, os CRPGs as seguintes características:

  • Ser baseado em um sistema de regras de RPG já feito.
  • Combate tático por turnos ou em tempo real com pausa.
  • Perspectiva isométrica.
  • Formato em grupo (você controla múltiplos personagens).
  • Criação de personagens livre.

Exceto que… o primeira é legal mas tá longe de ser um pré-requisito: Fallout usa um sistema original, por exemplo, e falando nele… Fallout até tinha companheiros que você podia recrutar, mas você não os controlava, ou seja: não era um jogo de grupo. Quer mais exemplos? Planescape: Torment era jogado com um personagem fixo, o The Nameless One. Combate? Hoje nós temos jogos como Disco Elysium, e Esoteric Ebb onde nem tem combate! E sobre a perspectiva isométrica? Lembra dos Dungeon Crawlers? Eles são considerados como CRPGs mas tinham perspectiva em primeira pessoa! Isso sem falar que muitos consideram (eu incluso) Vampire: The Masquerade: Bloodlines como CRPG!

Sem falar dos jogos que marcam várias dessas caixas, mas são ARPGs (Action RPG) como Diablo e suas crias, e TRPGs (Tactics RPG) como X-Com e suas crias.

Então, a minha definição é:

Os CRPGs são jogos que tentam emular da melhor forma possível, a experiência de jogar um RPG de mesa. Obviamente, a experiência NUNCA será a mesma, já que a espontaneidade de um grupo tirando idéias malucas da cartola, risadas e pizza nunca será emulada por por um jogo eletrônico. O que não impede muitos de tentar, e criar experiências épicas e inesquecíveis. Experiências que jogadores de RPG não devem deixar passar!

Afinal, as sessões de jogo com os amigos tem dia e hora marcados (e mesmo assim, podem ser desmarcadas por questões da vida adulta), mas eu posso abrir o Pathfinder: Wrath of the Righteus a qualquer momento do meu tempo livre!

Entendi, mas quais você recomenda?

Primeiramente, eu irei deixar de fora os clássicos do gênero, como Barldur’s Gate 1 e 2 e os demais jogos da Infinity Engine, assim como Fallout 1 e 2 e Arcanum. O motivo? Nem todo mundo é fã de jogo antigo, o que eu entendo, ainda mais para mergulhar em um gênero novo. Eu também não vou citar Baldur’s Gate 3 aqui. Você provavelmente já jogou. E mesmo se não, ele não é a melhor opção para começar no gênero já que sua apresentação está totalmente fora do que o CRPG médio pode oferecer.

Para começar, a maioria de jogos do gênero envolvem MUITA leitura – colunas e colunas de diálogos – e nem todos tem dublagem. Quando menos a abordagem cinematográfica que só um estúdio com muita grana no bolso é capaz de prover. Esses são exatamente os motivos que Baldur’s Gate 3 conseguiu furar a bolha, e é um jogo excelente por causa disto. Mas a maioria dos CRPGs modernos vieram de estúdios AA subsidiados por kickstarters.

Dito, isto, vamos começar com a minha primeira recomendação!

Shadowrun Trilogy

A minha PRIMEIRÍSSIMA recomendação é a trilogia de jogos de Shadowrun feitos pela Harebrained Schemes! Trata-se de Shadowrun: Returns, Shadowrun: Dragonfall e Shadowrun: Hong Kong. Cada jogo conta uma estória única e envolvente, porém, separada em cantos diferentes do Sexto Mundo, com o cenário sendo o fio conector de cada uma delas. Logo você não precisa jogá-los em sequência, tampouco precisa jogar todos.

Primeiramente, para um RPGista que se preze, o cenário de Shadowrun dispensa apresentação. Para quem não é, a premissa de um mundo de magia retornada com raças fantásticas junto de uma brutal distopia corporativa cyberpunk fala por si só!

Segundamente, os jogos são bem simples. Você cria a ficha num estalo, o inventário é bem limitado, mas perfeitamente alinhado com sua estrutura de missões. Cada jogo tem por volta 30-40 horas de duração para completar (Returns sendo o mais curto, por volta de 20h de duração). Ou seja, jogos simples e curtos que são perfeitos para os primeiros CRPGs jogados.

Isso se você já não começou por Baldur’s Gate 3, claro. Mas obviamente eu recomendo também pra quem jogou. Mas se este este é o seu caso, vai adorar a recomendação abaixo.

Divinity: Original Sin 2

Acaso você seja uma criatura que já jogou e adorou Baldur’s Gate 3 e nunca ouviu falar da franquia Diviny, bem… Imagine um jogo, tal como BG3, carregando todo o seu DNA, de interatividade com o mapa, combates por turnos muito bem feitos e possibilidades insanas de roleplay – mas sem estar agrilhoado pelo sistema de D&D 5ª Edição. Este jogo existe, e se chama Divinity: Original Sin 2!

D:OS 2 é o triunfo de um estúdio que teve que sobreviver aos trancos e barrancos por toda sua jornada. Passando por publishers predatórias e forçados a tomar decisões que comprometiam a visão criativa em nome da “rentabilidade”… das publishers, obviamente. Mas chegou o dia em que a Larian Studios disse um sonoro não pra tudo isso, e com a vinda do Kickstarter, um milagre chamado Divinity: Original Sin veio. Um ótimo jogo sem dúvidas! Mas foi sua sequência que solidificou a reputação da Larian e pavimentou o caminho para BG3 e aquele que será chamado simplesmente; Divinity!

A primeira coisa que alguém vindo de BG3 percebe, é que não há classes. Ao invés disso, o sistema se baseia em distribuição livre de perícias e habilidades. Você pode pegar um pacote de arquétipo quer emulam classes ou criar o seu personagem do zero (lembra um sistema aí?). O sistema de magia gira em torno da sinergia entre elementos, e é baseado em perícias próprias (huh, familiar, não?). Falando em jogos que devem sua existência ao Kickstarter

Wasteland 3

Wasteland 3 pode ser perfeitamente descrito como “Fallout isométrico por turnos”… Exceto que Fallout começou com dois jogos isométricos e por turnos. E além disto esses dois jogos, estavam “raspando a placa” de um jogo anterior que os desenvolvedores criaram – que se chamava Wasteland. Pera aí, quê?!

É isto mesmo! A franquia Wasteland precede Fallout. Louco, não? Mais louco ainda são os desenvolvedores originais, após terem formado um novo estúdio, conseguiram de volta os direitos da franquia… das mãos da EA, de todas as empresas! Isso por si só já um milagre, e com o outro milagre que já citei acima, a InXile conseguiu mandar uma sequência, e depois outra! Que é o jogo que falamos aqui.

Jogar Wasteland 3 depois de passar por Fallout 1 e 2 é como provar aquela receita da vovó, saca? Por mais que não seja exatamente feito por ela, ainda tem semelhanças o bastante par trazer a toda as memórias de tempos mais felizes… E pra quem não passou, espere um RPG pós-apocalíptico que tão, ou mais maluco que Fallout – mas que realmente deixa os momentos sérios terem o peso merecido para uma obra do gênero.

Oh, entrei em território bem pessoal não? Um pouco nostálgico, desejando voltar a um passado idealizado… Isto me lembra o próximo da lista!

Disco Elysium

Sem dúvidas o mais ‘diferentão’ da lista. Disco Elysium não é um jogo com combates, e campanha épica para salvar o mundo. Ao invés disso, você está salvando a si mesmo de depressão severa, alcoolismo e amnésia – enquanto tem que investigar um caso de assassinato envolvendo uma greve. Pois afinal, você é um detetive superestrela, não é?

O aclamado jogo do estúdio ZA/UM é fruto de artistas e RPGistas estonianos buscando expressar sua depressão pós-soviética em um jogo de RPG nos moldes de Planescape: Torment. E conseguiram perfeitamente! E sim: este é um jogo feito por um coletivo de comunistas e anarquistas e é politicamente inclinado! Mas relaxa, você não precisa participar do DCE para curtir este jogo. Tem escárnio de sobra para todas as ideologias, e nem os próprios comunistas são poupados!

O jogo não é longo, e pela a sua duração você estará em diálogos consigo mesmo e com diferentes personagens em busca de resolver o mistério – sobre o assassinato e sobre você. O estilo do jogo é único, evocando um tom de nostalgia com seu clima melancólico porém esperançoso. A escrita é uma das melhores… senão A melhor que eu já vi em um RPG. Ela equilibra um humor ácido que não perde a graça com os momentos mais sérios e pesados.

Disco Elysium é um experiência que todo RPGista deve ter, absolutamente!

Pathfinder: Wrath of Righteus

Okay, deixei as obras-primas da Owlcat Games por último por um motivo: São jogos que os veteranos do RPG devem jogar. No caso de Pathfinder: Wrath of the Righteus, os combeiros da época do D&D 3.5 e Pathfinder 1e. E acredite em mim quando eu digo que o jogo faz jus ao sistema que se baseia!

Para quem não sabe, o jogo é uma adaptação da Trilha de Aventura (que pode ou não ser adaptada também para Savage Pathfinder no futuro hein!) de mesmo nome. Campanha esta que gira em torno da Ferida do Mundo e a 5ª Cruzada Mendeviana que busca fechá-la de uma vez por todas! E você não será um simples soldado na linha de frente da cruzada, não-não-não. O seu destino, é o de liderar a cruzada para a vitória final, ou ruína absoluta!

Sendo uma adaptação de uma campanha de 6 livros, é de se imaginar que o jogo é gigantesco, e de fato é. Uma mega campanha com 150 á 200 horas de duração que vai do nível 1 ao 20! Então é, você estará bem ocupado na sua primeira run e nas posteriores – porque sim, haverão mais! Sendo uma adaptação fiel do sistema de Pathfinder, há uma infinidade de classes, subclasses, talentos, magias, oh! Então é um prato cheio pra quem realmente quer gastar 200 horas da sua vida nisto. Isso sem falar de uma das melhores estórias, grupo de companheiros e a melhor vilã de um RPG moderno hein!

Warhammer 40k: Rogue Trader

A icônica franquia Warhammer 40k é conhecida por ter jogos de tudo quanto é tipo, de jogos de estratégia que emulam bem o jogo de mesa até jogos de corrida! Mas surpreendentemente, não havia um CRPG deste universo magnânimo… até a pouco tempo. Mundos se abalaram quando Owlcat Games anunciou que o próximo projeto após o jogo acima seria Warhammer 40k: Rogue Trader, baseado no RPG de mesa de mesmo nome!

Rogue Traders e seus mundos súditos são uma espécie de ‘capitanias hereditárias’ (tu lembra disso nas aulas de história, não é?) do universo de WH40k. O título passa de geração em geração, vindo desde aquele(a) que recebeu a Warrant of Trade – um documento assinado pelo próprio Deus-Imperador durante a Grande Cruzada – portanto, uma relíquia inestimável! E neste jogo você é mais novo herdeiro da dinastia Von Valancius, que domina porções da Expanção Koronus, junto de outras duas dinastias.

Se você é um fã de Warhammer 40k, esta é uma experiência o-bri-ga-tó-ria. Se não é.. bom, será. Eu mesmo era uma fã casual do universo, conforme só compreendia o cenário através de vídeos de lore no YT e jogos menores, mas este jogo aqui te dá a experiência de vivenciar o 41º Milênio. E assim, como jogo acima, é um colosso de 150+ horas que, apesar de não ser tão bem escrito e ter um grupo de companheiros mais arquetípico, ainda assim é uma excelente experiência. O que me deixa animado para Warhammer 40k: Dark Heresy!

Menções honrosas

Eu quis manter a minha lista enxuta e com bastante variedade. Você provavelmente percebeu que não há muitos de fantasia medieval tradicional – uma temática que é sinônimo com RPG desde que Dungeons & Dragons saiu do forno. Justamente para dar uma variedade de temas, estilos e abordagens. Então aqui vão as minhas indicações que ou foram eliminadas pelo critério acima, ou poroutros motivos, mas qua inda valem a pena!

  • Esoteric Ebb é uma jóia deste ano! Um jogo de produção independente do nascente sub-gênero dos ‘Disco-likes’ – jogos que seguem os passos de Disco Elysium, citado acima! Este é particularmente especial porque é uma versão d20 de Disco, em um mundo de fantasia totalmente maluco porém lindo!
  • A duologia Pillars of Eternity, e Pillars of Eternity 2: Deadfire são obras-primas de desenvolvedores veteranos da Obsidian. O mundo de Eora pode parecer bem derivativo de fantasia tradicional, mas tem muito a surpreender. Especialmente quando se fala sobre fé e divindades…
  • Tiranny também é outra jóia rara da Obsidian. Tem a ousada proposta de jogar com agentes de um tirano imortal que está finalizando sua conquista do mundo. O jogo faz perguntas importantes sobre qual é o valor da ordem em relação a liberdade, e muito mais! Infelizmente, termina em um cliffhanger que nunca terá sequência.
  • Também não posso deixar os clássicos da Infinity Engine de trás, não é? O gênero começou com Baldur’s Gate, e se consagrou com, Baldur’s Gate 2: Shadows of Amn.  Mas não podemos nos esquecer de outros jogos que vieram da mesma época, em especial Icewind Dale e Planescape: Torment!
  • E é claro, como um fã de Fallout, eu não posso deixar Fallout 1 e Fallout 2 de fora. Estes jogos podem ter envelhido mal em muitos aspectos, mas estas são as marcas registradas de clássicos do RPG!

Conclusão

O RPG é a porta de entrada para drogas piores. Pois pelo menos o RPG de mesa, ainda tem limitações como um grupo, horário marcado e jogadores que faltam na última hora. Com os CRPGs você pode gastar horas e mais horas testando builds e xavecando NPCs, e reiniciando o jogo várias vezes, é claro. Então, invista seu tempo com sabedoria!

Além do mais, se eu conseguir lançar este artigo antes do dia 09/07, saiba que a promoção da Summer Sale na Steam ainda está rolando, então aproveita pra pegar os joguinhos com desconto (deixei os links das páginas nas imagens de cada um!). Masnão antes de fazer o seu apoio para Rebeldes de Havenwood hein!

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