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O Último Espetáculo

o ultimo espetaculo

Era minha primeira visita à Neo-Salém, a cidade que nunca dormia. As luzes dos letreiros neon causavam propositalmente um ambiente psicodélico, para induzir a ideia de futurismo como nos antigos filmes cyberpunk. Pessoas encapsuladas dançavam nuas nas vitrines do Bêco Vermelho e portinholas nas paredes vendiam drogas a quem pudesse pagar. A venda era liberada e representava uma parte considerável na renda da cidade, mas o consumo em público era punido veementemente. Porém isso não evitava que pessoas ficassem sentadas nos cantos com seus fones de ouvidos, em estado catatônico usando audiodrogas. Este tipo de droga psíquica era famosa por aqui.

Com as drogas, medicamentos também eram comercializados sem fiscalização e foi isso que me trouxe até Neo-Salém. No Novo Rio, nem mesmo uma engenheira química com formação e residência nos laboratórios Corsus tem facilidade para adquirir certos tipos de medicamentos. Meus problemas gastrointestinais são casos de cirurgia e tratamentos médicos caríssimos e isso faz com que o governo dificulte a aquisição de medicamentos paliativos.

Nas ruas de Neo-Salém, é fácil colher informações diversas no meio da grande movimentação de pessoas. Um burburinho sobre o Circo dos Esquecidos era o que mais pude ouvir. Dizem que o misterioso espetáculo estaria na cidade naquela noite, quando a névoa acinzentada que pairava sobre as ruas se tornaria mais espessa, quase tangível. Não é sempre que a cidade podia oferecer um turismo que não envolvesse sexo ou drogas, e já que eu estava ali, por que não aproveitar? Segui os rumores até um terreno baldio de uma refinaria abandonada. Conforme eu me aproximava junto à multidão, tendas esfarrapadas e coloridas pareciam surgir na névoa como fantasmas, até que pudéssemos ver as luzes. Não havia fila e nenhum ingresso a ser comprado, apenas um convite à enorme tenda principal e uma simpática senhora oferecendo sacos de pipoca com um fantástico aroma de manteiga. Dentro dos muros de Neo-Salém só se conseguia plantar batatas, e cereais vinham de fora, não eram baratos. Ainda com um desconforto abdominal, fui uma das únicas pessoas que tiveram que recusar.

A atmosfera dentro da tenda principal exalava um misto de misticismo e decadência. Na platéia, humanos e ímpares Aberrantes compunham uma multidão de curiosos o bastante para se sujeitar a um entretenimento desconhecido. No centro, um palco circular era iluminado por um foco de luz sujo, trespassado por um misto de poeira e resquícios da névoa que habitava lá fora. O apresentador surgiu de uma cortina ao fundo do palco, caminhando de cabeça baixa com o rosto perdido na sombra da longa cartola. O primeiro ato foi anunciado.

Uma mulher com pele de escamas douradas entrou pela cortina. Seus olhos fixos na multidão parecia hipnotizar mais do que a bela dança que as curvas de seu corpo desenhavam no ar. Ela movia-se graciosamente e deslizava como se não houvesse gravidade, desafiando as leis da física e inspirando beleza e estranheza nos olhos do público.

Os atos seguiram-se embalados por sons ambientes que iam da música clássica ao heavy metal, criando climas propícios para cada apresentação. Um homem de três braços que atirava facas ao redor de espectadores voluntários e corajosos. Um idoso preso no corpo de uma criança, contava histórias do pré-bombas que seriam proibidas pelo Domo em diversas cidades. Um homem esticava seus membros como borracha, realizando feitos impressionantes.

O espetáculo culminou com o surgimento de um ser enigmático conhecido como “O Visionário”. Trajado com um manto de estrelas cintilantes, convidava pessoas da platéia para revelar seus segredos escondidos, que apareciam no alto da cabeça do voluntário como uma tela em forma de névoa para que todos pudessem ver. Uma jovem se aproximou hesitante. O Visionário tocou sua testa e imagens da sua vida, se projetaram na névoa acima deles como magia que surgia e em seguida, se desfazia a cada cena.

Fascinado, o público assistia às imagens borradas tomarem forma. Imagens do início do dia da jovem começaram a surgir, desde o momento em que pulou da cama, alternada por eventos cotidianos sequenciais. Alguns se reconheceram nas imagens, e apontavam entusiasmados para a névoa enquanto a cena mostrava a entrada do circo, o surgimento do misterioso Visionário, a entrada da jovem até o palco. E continuou.

As vozes da plateia se calaram enquanto o espetáculo continuava em cenas de minutos no futuro, onde rostos retorcidos sofriam em agonia, corpos caíam inertes, dor, desespero, suplício. Visionário acenou para que o operador acendesse as luzes, interrompendo o espetáculo. Naquele mesmo instante, a jovem tombou ao chão, se contorcendo em agonia e dor e gritos que foram seguidos pela multidão, um aqui, outro ali, e cada vez mais outros urros puderam ser ouvidos.

Todos começaram a correr em uma cena de caos e desespero. Nos corpos caídos ao chão começaram a surgir lesões arroxeadas, que em seguida eclodiram em brotos de milho que se desenvolviam rapidamente de dentro da carne. Eu ainda estava parada na arquibancada e vi tudo de perto quando o lugar virou um milharal mórbido e sinistro. Do lado de fora, a simpática senhorinha da entrada da tenda sorriu e acenou pra mim com 3 dedos levantados, gesto que conheci quando trabalhava nos laboratórios da Corsus. 

Era um recado do Exclave.


Oddcell é um universo de RPG que aborda um planeta Terra em 2048, devastado por uma guerra nuclear sob resquícios de um vírus que transformou pessoas comuns em seres dotados de poderes inimagináveis. Acompanhe o site e fique por dentro das novidades. oddcell.com.br

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