Justiça Cega
Um conto no universo pós-apocalíptico de alta magia e tecnologia de Rifts®,
por Victor H. S. Thomaz
Parte 2… Veja a Parte 1 aqui.
Ela aponta a sua Psi-Espada brilhando em luz azulada em direção ao Cavaleiro Místico, que retribui o gesto com a sua lâmina encantada cujo desembainhar era como um abafado grito de socorro.
– Aqui não é o lugar… – Antes que a Cyber-Cavaleira consiga pôr um pouco de bom senso, a espada do Cavaleiro Místico emanava um violento brilho vermelho-sangue, que surgia do seu braço trêmulo.
A dama rapidamente pega uma das mesas pelos pés e a põe entre ela e o seu alvo, improvisando um escudo. A mesa é estraçalhada por um raio que a transforma em lascas afiadas de madeira voando em toda direção, ferindo alguns clientes que foram curiosos demais para sua própria segurança, e eu quase me inclui se eu não tivesse me abaixado a tempo. A cavaleira é arremessada para o chão pela força do impacto.
Do chão eu consegui vê-la erguendo a sua Psi-Espada antes de se levantar em um salto. O brilho azulado da lâmina espiritual agora era acompanhado de um arco voltaico estalando em eletricidade, a cavaleira rapidamente fecha a distância entre ela e o seu oponente.
Daí então eu mal conseguia acompanhar a dança mortal dos dois, apenas ouvir os sons de trovões se chocando com aço Tecno-Mágico. Pois eu estava me protegendo por trás das grossas vigas de madeira que davam sustentação ao prédio.
Só tive a coragem em voltar a observar a cena quando as espadas se chocaram em definitivo, com um tentando vencer uma disputa de força bruta para dirigir a sua lâmina ao peito do outro. Loreth era mais alto e mais corpulento que a mulher cega, que apesar da sua falta de olhos lutava com maestria, mas eu temia que este fosse o seu momento final.
Com uma expressão de ódio, mudando para pura raiva, o cavaleiro negro venca disputa. Mas antes que sua lâmina perfure a dama… Ela já havia dado um passo para fora da trajetória, e sua Psi-Espada se encontrava fincada no abdômen do Cavaleiro Místico!
Em apenas um movimento, ela conseguiu derrotar seu adversário, que caia no chão com a dor lancinante do corte e dos relâmpagos que atravessavam seu corpo.
Loreth Morgan, agonizando, deu suas últimas palavras para a Cyber-Cavaleira que se inclinava para ouvir. – Meus irmãos… Foram embora… Perseguindo, um sonho inútil… Redenção…
A dama cega se prostrava sobre ele, seus dedos seguiam um colar que o cavaleiro caído usava, até que chegou em um amuleto de sua temida ordem. Morgan, com as suas últimas forças, agarra a mão da cavaleira.
Sua boca cuspindo sangue, é usada pela última vez para pronunciar. – Caçar os homens maus… Não vai apagar a sua própria maldade… E seu histórico sujo! Mulher… Guerreira… Cega…
As últimas palavras de Morgan acenderam uma lâmpada em minha mente! De repente tudo fez sentido! Mas eu precisava provar isto vendo com meus próprios olhos…
A Cyber-Cavaleira retirou o amuleto do colar em uma só puxada, assim que o último suspiro de seu oponente a permitiu. O local agora estava silencioso como um cemitério, mas aos poucos, os clientes que sobraram e o pobre do bartender se levantavam para observar com admiração uma protetora reverenciada do povo comum, em contraste com as consequências da cena caótica.
– Quanto eu lhe devo? – Perguntou a cavaleira cega, após se levantar e desfazer a lâmina espiritual, se virando para o balconista.
– Bom… Danos materiais dá pra consertar, isso não é caro… Somando com as despesas médicas dos feridos daria… – Disse o homem baixinho e barrigudo de meia-idade que estava atrás do balcão, ele tremia por um misto de medo e admiração enquanto fazia contas rápidas em sua cabeça. – Uns 3.000 Créditos, senhora… Mas não precisa…
Já com um dispositivo eletrônico adaptado para a sua condição em mãos, ela simplesmente aperta um botão para ouvir um sonoro: – Transferência concluída. – da voz automatizada do dispositivo, que ela novamente guarda.
Enquanto ela se dirigia até seu manto que estava no chão, o meu impulso curioso falou mais alto. Corri até ela. – Gente! Olhem só! – Ela provavelmente não entendeu o porquê de eu imediatamente tocar em sua venda, ou talvez ela nem tivesse tempo de me impedir de removê-la!
A venda escura cobria orelhas levemente pontudas, e seus olhos inúteis compostos somente pela esclera, deixando um vazio branco onde deveria haver íris e pupila. Somando com sua falta de pálpebras, a deixava totalmente desconcertante.
– Ela é uma Mulher Guerreira Altara! Uma Serva de Splugorth que encontrou… – Ela brutalmente me agarrou pelo colarinho e me levantou como se eu fosse uma sacola antes que eu pudesse terminar a frase.
– Largue ele! Serva de Splugorth!!! – Gritava os clientes, cuja admiração virou raiva em menos de um segundo. – Você não é bem-vinda aqui! – Exclamou o bartender.
Ela me soltou subitamente, e eu caí no chão conforme eu tentava recuperar o fôlego.
– Desculpem-me pelo inconveniente. Eu já estava de saída. – Disse ela, num quase grunhido enquanto pegava o seu manto. Seus olhos vazios entraram em minha direção, e eu podia jurar que seu rosto inexpressivo escondia raiva e desapontamento comigo naquele momento. Eu concordava com o sentimento…
. . .
Estava correndo pelo chão lamacento desta pocilga. Quando finalmente vi ela nos limites da cidade indo embora sozinha, eu chamei para esperar e apertei o passo.
– Você… Esqueceu isto. – Eu falei ofegante, enquanto mostrava a venda em minha mão direita.
– Isto vem com um pedido de desculpas? – Perguntou ela. Minha resposta, imediatamente, – Sim. Eu peço perdão pelo que aconteceu lá. Eu só queria…
– Não precisa se justificar!
Eu me calei, não sabia mais o que dizer, apenas continuei mostrando a venda que é dela. E ela pegou, dizendo, – Você era o único nesta cidade que estava disposto a ajudar uma mulher cega a encontrar o seu destino. Eu sei que as tuas intenções eram das melhores.
– Mas eu peço que fique longe de mim, para o seu próprio bem. Você se arriscou demais naquele bar. – Ela expressou, enquanto amarrava a venda novamente em seu rosto.
– Sim, sim, senhora. Mas eu não sei se posso seguir com este pedido. – Eu respondi e já pude sentir ela se virando em minha direção novamente, me julgando com seus sentidos.
– Eu sou um Vagabundo, meu trabalho é saber de coisas e não ficar em um lugar só, era o que eu ia dizer anteriormente. E já estava de saída desta cidade. – Eu continuei. Ela começou a andar, ainda assim ouvindo o que eu tinha a dizer.
– Eu posso ser útil em muitas coisas, muitas mesmo! E estar servindo a uma renomada Cyber-Cavaleira já é uma recompensa grande o bastante! Falando nisso, eu posso pedir o seu nome?
– Depois de você. – Ela parou e se virou para mim novamente.
– Mark, Mark Poole. – Eu estendi a mão enquanto me apresentava, desta vez não era como um cavalheiro ajudando uma dama, e sim como partes iguais selando um acordo.
– Já tive muitos, mas agora eu sou Lady Alessa II – Ela apertou fortemente a minha mão somente depois de dizer o seu nome.
– Escute, se está disposto a seguir o meu caminho… Eu não irei impedir de cometer tamanha besteira. – Disse ela, com seus lábios esboçando um quase insignificante semblante de um sorriso.
– Mas isto virá com uma condição. – Meus ouvidos estavam apostos para escutá-la.
– Um dos princípios do Código de Cavalaria, me impede de diretamente ferir ou matar inocentes. – Continuo concordando, ainda sem saber o ponto que ela queria chegar. Quando ela me pega pelo colarinho novamente com a outra mão!
– Se me expor mais uma vez… Eu CERTAMENTE vou quebrar este princípio. – Ela me soltou ao dizer isto. – Eu entendi, senhora.
– Pode me chamar pelo meu nome.
– Sim, sim, Lady Alessa. Inclusive, para onde vamos? – Eu perguntei, animado mas recuperando o fôlego.
– Castelo Refúgio. Meus superiores me aguardam depois de cumprir com minha missão.
– Oh, sim! Então os rumores eram verdade. – Eu não podia esconder meu ânimo ao mencionar.
– Quais rumores? – Ela inquire.
– Lorde Coake. Ele está fundando uma nova ordem em Castelo Refúgio, uma que vai muito mais além dos Cyber-Cavaleiros!
– Você sabe demais para o seu próprio bem, Mark. – Disse Alessa, enquanto retomava a caminhada.
– É literalmente a minha profissão, senhora… Lady Alessa.
Viramos para o longo caminho a frente novamente, uma longa estrada de terra batida que serpenteava os vales, era o que seguiríamos daqui em diante.