Um conto no universo pós-apocalíptico de alta magia e tecnologia de Rifts®,
por Victor H. S. Thomaz
Era uma noite comum nas entranhas dos ‘Burbs. Em uma praça bem movimentada durante o dia, pois a noite se tornava um deserto. Ninguém em sã consciência perambula nos ‘Burbs à noite sem necessidade, exceto Ratos da Cidade de todos os tipos e gangues que saem de suas tocas para conduzir seus negócios. Esta noite mal iluminada era uma delas.
Uma limusine flutuante descia dos céus nublados, sua pintura e vidros ilegalmente escuros cintilavam a tímida luz da lua, coberta por nuvens e pelas torres da mega-estrutura titânica de Chi-Town. Ela pousou no centro da praça, onde dois grupos diferentes aguardavam sua chegada. De um lado, uma multidão de mercenários bem armados guardavam o perímetro. Do outro, um esquadrão de Dead Boys da Coalizão, trajando as famosas armaduras de modelo antigo: pretas dos pés à cabeça, capacete em forma de crânio humano interligado por cabos de oxigênio e visores vermelhos que perfuram a alma de psíquicos, mutantes, alienígenas, magos e escória comum.
O líder do segundo grupo trajava um garboso uniforme por cima da armadura sem o capacete, denotando a patente de Inspetor-Tenente da ISS. Ele flanqueava-se de dois humanoides de cabeça e pelagem caninas: Dog Boys, mutantes criados com o propósito de farejar energias mágicas e psíquicas. Ele fitava a limusine que desligava seus motores de voo, esperando ansiosamente o seu principal ocupante.
Oswald Jackson, mais conhecido pelo seu acrônimo de “OJ”, visualizava tudo a partir de um binóculo eletrônico com zoom no máximo, no topo de um prédio alto em distância razoável.
— Mercenários, Mercado Negro. Pelos menos quatro deles são Headhunters. — OJ ouviu a voz de Hayashi do outro lado do comunicador, com sua fala carregada de sotaque da sua terra natal. O companheiro especialista em infiltrações era mais apto a observar e relatar a situação de perto.
— Então já sabemos que este é o seu cara! O que estamos esperando? —, disse Horek, com sua voz ríspida de um anão. O outro colega de OJ que estava bem ao seu lado.
Apesar disto, o corpulento homem de pele negra e cabelo raspado nas laterais, formando um curtíssimo moicano não tirava seus olhos do binóculo. Juicers tem uma péssima capacidade de atenção, mas para OJ era diferente: ele seguia os rastros do filho da puta que raptou sua esposa e filha há pelo menos três anos. Tubos esverdeados seguiam sua esbelta musculatura, ligando seu corpo ao biocomputador que injetava um “Suco” de bioquímicos pesados e nanites em suas veias. Tal implante era relativamente barato financeiramente, mas o preço que ele pagava a cada segundo era inestimável: sua própria vida.
Mas nada era caro demais se o permitisse seguir na inflamada vida em busca delas. Três anos se foram, e OJ já aceitava que elas estavam mortas, pois o tempo que tinha estava acabando. Mas ele lembrava do rosto que viu naquele maldito dia – estava gravado em sua memória como uma fotografia. Então era o que restava fazer: acabar com o desgraçado.
Os quatro Headhunters caminharam em fila até a lateral da limusine, um deles abriu a porta traseira do veículo, e lá saíu ele. O arrombado estava de terno como sempre, mas seu cabelo espetado e sorriso torto sempre destoava da imagem profissional que ele tentava vender. Sempre flanqueado de músculos metálicos de seus Headhunters guarda-costas, todos bem alinhados e com ternos finos em cima de suas camadas parciais de implantes cibernéticos; cromo escuro de fina qualidade. Vinnie Sorriso, era o nome do arrombado.
OJ tirou o binóculo dos olhos assim que a imagem familiar entrou em vista, e pôs no lugar, seus óculos escuros de guerra. — Vamos Horek, temos um Mercadista Negro pra caçar.
— Até que enfim! — O anão de barba vermelha e cabelos selvagens deu um sorriso com seus dentes afiados. — Deixe aquelas lagostas pretas para o meu machado! — disse ele enquanto levantava sua arma bem ornamentada com relevos dracônicos.
A armadura escamosa do anão escondia tubos similares aos de OJ, entretanto o composto bioquímico dele era infundido por um coquetel de poções mágicas que rendiam habilidades extras, como poder usar itens Tecno-Mágicos. Presente do seu antigo senhor que OJ ajudou a matar. O preço que Horek pagava era ainda mais alto, pois seu implante dependia de um ingrediente raro: sangue de dragão! E o estoque que veio de seu senhor estava acabando.
. . .
Hayashi ajeitou sua máscara mais uma vez. Contraponto de seus amigos americanos, o tratamento raríssimo dele não tirava seu foco, pelo contrário, era focado até demais. Por isso era o cara certo para o trabalho. Estava empoleirado como uma gárgula fora da vista dos participantes, observando tudo da reunião de negócios.
— Reconheci o alvo —, disse ele para OJ.
— Certo. Eu e Horek estamos indo, aguenta aí que chegamos em um minuto —, respondeu OJ do outro lado da linha.
— Talvez descobriremos algo com isto. — Hayashi tirou da mochila um microfone direcionável de alto alcance.
— Gostei da idéia — respondeu OJ. — Eu quero ouvir a voz desse verme antes de esmagá-lo!
Sem desperdiçar palavras, o mais esguio dos três conectou o microfone ao comunicador após contar suas shurikens especiais e verificar a frequência de sua Vibro-Katana, pois ele sabia que as coisas ficariam animadas logo. Apontou o dispositivo, e a estática aguda deu lugar às vozes dos negociantes na calada da noite.
— É isto? É SÓ isto o que o meu silêncio custa pra você? — disse o inspetor da ISS segurando firme um feixe de cred-sticks com a mão.
— Pelo que eu me lembre este era o nosso acordo, Kilgore. — Vinnie não desfazia o seu sorriso enquanto falava.
— Você subiu as escadinhas do Mercado Negro, tá com a mão funda no pote controlando as atividades em vários ‘Burbs, e ainda veio de limo flutuante novo —, disse o Inspetor Kilgore com a cara fechada. — Antes eu fazia negócios com um gerente local, agora estou falando com um chefão do crime. O acordo é diferente; meus termos mudaram!
— Ih alá! — Vinnie Sorriso agora gargalhava fitando seus mercenários. — Inspetor… saiba que além disso, eu te ajudo a manter a paz na vizinhança. Eu deixo tua vida mais fácil camarada! Vai me dizer que isso não é um bom adendo ao trato? Não cuspa no prato que tu come.
— Eu sei… e posso acabar com esta sua paz a qualquer momento. O que disse também vale pra você; eu não sou sua puta!
— Tá agindo como uma…
— Olhe seu merda! — Kilgore estava com rosto vermelho notável mesmo na luz fraca da noite. Ele quase saltou de raiva ao jogar os cred-sticks com força no chão, enquanto fez um movimento suspeito com a outra mão, perigosamente perto do coldre.
Sons de armas de vários tipos apontadas para ele, foram sucedidos da mesma atitude dos Dead Boys e rosnados dos Dog Boys. Ambos os lados estavam com armas destravadas e miradas, prontas para o pior.
— Irmão! Tu não vai fazer isso! Nós estamos em maior número, e até o meu chauffeur pode te transformar em popa amigo! — ele ria histericamente. — Nem um Juicer seria tão suicida!
Vinnie gargalhava. Mas algo que só ele notou, tirou seu sorriso. — Puta que pariu!
Um feixe concentrado de laser veio da escuridão e abriu um buraco na cabeça de Kilgore. O Inspetor caíu sem vida com um baque.
. . .
OJ chegou um pouco antes do encontro ficar agitado, pois ele tomou um atalho saltando de prédio em prédio ao invés de descer e seguir pelas vielas lamacentas. Suas veias estavam fervilhando com o “Suco”. O biocomputador calculava um aumento de cortisol e adrenalina no sangue do Juicer, e aplicava a quantidade necessária de bioquímicos julgando que o combate estava próximo. A quantidade necessária de OJ agora não era a mesma de anos, e tampouco meses atrás. Ela ia aumentando em doses cavalares, resultando em tremedeira e aumento de temperatura corporal, até mesmo um fino brilho alaranjado debaixo de sua pele. OJ e seus colegas estavam no “Último Chamado”.
Se escondendo em uma barricada de entulho na escuridão, ele observava o encontro a partir da luneta de seu Fuzil “Juicer Assassino” JA-11, seletor em tiro de laser; Feixe Pesado. O retículo centrava-se perfeitamente entre os dois. Vinnie estava escorado e relaxado no capô da limousine escura, enquanto o inspetor dava passos curtos de raiva aqui e acolá. Então ele ouviu o “nem um Juicer seria tão suicida!” no comunicador. Teve um sobressalto com a súbita infusão do “Suco”.
O movimento brusco alertou Vinnie. OJ tinha um segundo para pensar no que fazer. Ele puxou o gatilho, retículo da mira centrado no inspetor. O laser vermelho cortou o ar indo direto pra cabeça do alvo, a fritando.
— Um cana corrupto a menos! — OJ se levantava dizendo. — Já ele… prefiro um encontra cara-a-cara!
O anão ao lado riu com dentes serrados. — Eu vou na frente! — disse ele com a voz ainda mais rouca. Apertou o cabo do machado e infundiu a arma com PPE, fazendo-a estalar em relâmpagos. Uivos dos Dog Boys alertaram à todos da presença de magia no mesmo instante, e o anão soltou em direção da comitiva da Coalizão, já recebendo uma ovação de lasers dos soldados assim que entrou na vista deles. Com olhos em um laranja cintilante, ele previa a trajetória de cada feixe, e desviava com rolamentos no ar. Foram poucos segundos entre seus pés tocarem o chão, e ele fechar distância com os Dead Boys.
— Eu te cubro! — OJ mudou o seletor para rajada de íons, e pressionou fundo o gatilho, liberando um jato molecular contínuo a partir do cano que transformou mercenários próximos em névoa carmesim. O local era tomado por sons estridentes de lasers cortando o ar, jatos de íons superaquecidos derretendo carne humana e os gritos de suas vítimas.
O anão dançava em frenesi com seu machado, atingindo junções nos braços e pernas das carapaças dos soldados da Coalizão, com cada acerto o estouro de um trovão. Por um momento, era impossível ver em uma nuvem de sangue. Horek deu um sorriso selvagem ao içar a cabeça do último em seu alcance com um golpe limpo em seu pescoço, levando-a à três metros de altura brilhando em eletricidade. Ele ouvia latidos furiosos vindo em sua direção. Os Dog Boys queriam seus ossos.
OJ nem terminou sua rajada iônica de supressão quando notou os guarda-costas biônicos empurrando Vinnie de volta para a limusine flutuante. Dois deles apontaram suas armas: os poderosos canhões elétricos de infantaria carregavam uma rajada devastadora com um brilho crescente em seus trilhos e um som progressivamente alto, terminando em uma sucessão de estouros ensurdecedores. OJ nem se importou em tomar cobertura.
Uma nuvem de poeira escaldante pelo impacto de centenas de projéteis supersônicos em concreto e metal pesado se ergueu em volta de OJ. Apenas sua larga silhueta era visível pelo brilho alaranjado que vinha de seu corpo. A pilha de entulhos parcialmente o protegeu da nuvem de aço, mas ainda assim, tal ataque era capaz de transformar um mero humano em pedacinhos, mas OJ nem era um mero Juicer…
Ele tocou os seus ferimentos do ataque, e viu sangue incandescente sair de seu corpo – algo raro para quem tem o tratamento Mega Juicer!
Merda, agora sou eu que preciso de cobertura, pensou ele. Cadê você, caralho! OJ só viu uma sombra pairar por cima dos dos Headhunters graças aos seus reflexos sobre-humanos, pois foi em menos de um segundo. Os dois viraram-se um para o outro e só tiveram tempo de saltar em mergulho para longe da limo, com os shurikens protuberantes nas costas piscando em vermelho sangue. As explosões vieram instantâneamente, Vinnie tinha dois guarda-costas a menos. OJ rasgou a cara em um largo sorriso.
— O que é cachorrinhos de merda? Ficaram com medinho do barulho?! — Horek estava irritado com os Dog Boys terem parado sua carga no meio do caminho, mas ele viu dezenas de rifles convencionais com munição RamJet e pistolas lasers serem apontadas para ele na linha dos prédios próximos, um local que ele não podia chegar facilmente. Os meliantes do Mercado Negro fizeram chover chumbo sob o anão, que sapateava para evitar as trajetórias das balas híperaceleradas.
Uma sombra escalou paredes com o impulso da velocidade, alcançando telhados em menos de um segundo. Horek mal pode acompanhar seu movimento, apenas notou o reluzir de uma Vibro-Katana na noite e uma névoa carmesim surgindo de quem a sombra alcançava. Ele deu uma risada selvagem ao ver lajes pintadas de rubro com o sangue de seus inimigos, e virou sua atenção novamente aos Dog Boys. Os dois homens-cães rosnaram e saltaram. Horek mal pode por seu machado em posição para aparar o golpe do primeiro, quanto menos contra-atacar. A dor lancinante o tomou, ele foi atingido em cheio pelas Vibro-Garras do primeiro Dog Boy que uivava em vitória.
Horek literalmente via vermelho, seu coração fulminava como uma metralhadora em seu peito, graças a infusão do “Suco” para mantê-lo vivo com o golpe. Ele apertou seus dentes com tanta força que eles quase saltaram de sua boca, em seguida, deu um grito de fúria intenso como explosões. Com uma única mão, torceu e quebrou o braço do Dog Boy – fácil quanto um palito de dentes, e arrancou a braçadeira com a Vibro-Garra de seu peito.
A súbita infusão o permitiu enxergar o outro Dog Boy ainda no ar com extremo detalhe, e a planejar de acordo. Ele posicionou seu machado. Nem precisou balança-lo. O homem-cão gritava no ar, caindo de boca no machado relampejante de Horek. A parte superior da cabeça do Dog Boy foi pra longe, com uma trilha visível de sangue até a parte inferior junta do corpo. Horek deu mais um berro. Sua barba desgrenhada estava suja com sangue de seus inimigos, e dele mesmo. Seu nariz escorria sangue sem parar.
— Perdão pelo atraso — disse Hayashi, o Ninja Juicer se aproximando de Horek, o Dragon Juicer.
— Há, pontual como semp–
O anão quase caíu subitamente. Ele segurava-se em seu machado fincado no chão para não abraçar tão logo seu destino.
Hayashi disparou até seu colega e tentou erguê-lo com seus braços, mas o anão era pesado. Ele cravou uma kunai no pescoço do Dog Boy caído, garantindo que ele não seria um problema.
— Eu disse… — falou Horek, tossindo sangue. — Que eu iria primeiro moleque… — O anão estava perdendo a consciência, uma vez que veias e artérias seu cérebro romperam com a pressão da última infusão do suco. Horek brilhou até queimar uma última vez neste combate. Mas nenhuma expressão se esboçava por detrás da máscara de Hayashi.
OJ ainda estava ofegante, deixando que os nanites recém injetados em doses cavalares fizessem seu trabalho de remendar seu corpo após rajadas de canhões elétricos. Ele cerrou os punhos ao ver o final da luta de Horek e o que veio depois. Deixe-nos, garoto… pensou ele, se virando para Hayashi. Você ainda tem tempo…
Mas sua atenção se voltou contra a limusine. Ele deu passos pesados até o veículo neste breve momento de silêncio, enquanto tirava uma granada de Fragmentação de seu cinto com intenções de cozinhar Vinnie em seu veículo. Ele marchava focado em seu alvo, granada sem o pino em sua mão que apertava firme a alavanca. Estava tão focado que foi surpreendido com o solavanco de um golpe de braço cibernético em suas costas, forte o bastante para levá-lo ao chão. A granada chegou quicando próximo a limo que já reativava seus motores de voo. A explosão foi forte o bastante para lançar o veículo ao ar, rodando como um peão até o baque no chão, caindo capotado, mas não destruído.
OJ estava de bruços no chão e tentou se levantar, mas já sentiu o toque frio de um braço cibernético o agarrando pelo colarinho e virando seu corpo para o Headhunter. Ele teve pouco tempo de olhar para o rosto coberto pela placa facial e câmeras no lugar de olhos, e já levou dois socos seguidos do segurança de Vinnie. Foi como socar a carapaça de um tanque com as mãos nuas. OJ agarrou o punho no terceiro soco e com o movimento, o jogou no chão e subiu, invertendo a posição. Nem teve tempo de pensar em hesitar, já descarregou três socos com músculos tensionados com o “Suco” direto no rosto metálico, amassando a placa facial caríssima do Headhunter para dentro do crânio.
Mas logo teve seu pescoço constrito por outro braço cibernético, do outro segurança Headhunter que infelizmente estava vivo.
— Acabou pra você, palhaço! — gritou o segurança com uma voz filtrada eletronicamente. — Último Chamado. Vai morrer… TÃO perto da sua vingancinha… é uma pena mesmo.
O brilho subcutâneo de OJ voltou mais intenso do que nunca, e sua temperatura corporal aumentava conforme era forçado a olhar para a limusine tombada com labaredas de chamas em volta. Vinnie rastejava como um verme para o lado oposto, saíndo do veículo. Mas uma sombra o alcançou.
— Oh, você não conseguiu nem passar pela gente… quem dirá então, pelo chauffeur. Perto dele, nós somos crianças! — disse com soberba o segurança o agarrava com toda a força.
OJ reconheceu a sombra como Hayashi, que já desembainhava sua Vibro-Katana próximo à Vinnie. Um braço enorme saíu da cabine do motorista e agarrou o ninja pelo pescoço. — Nã–
Ele tentou gritar, mas o braço metálico apertou sua garganta. Mais uma infusão do “Suco” veio logo em seguida, e seu coração disparou. Com uma força sobrenatural OJ arrancou o braço de seu pescoço, se levantando no mesmo movimento. Ela agora agarrava o braço do segurança, e seus dedos se afundavam, marcando a placa do implante. Ele pegou o segundo braço com a outra mão quando o Headhunter tentou se desfazer do agarrão. Com muita resistência dos pistões, ele puxava os braços para direções diferentes.
— Não! POR FAVOR NÃO! — O grito por clemência do segurança caíu em ouvidos surdos. Metal se contorcendo e partindo ao meio, misturando com as faíscas dos cabos elétricos rompidos geraram um curto-circuito no implante. O Headhunter caíu de joelhos com seu par de braços arrancados, e OJ o finalizou com uma pancada de seu próprio braço cibernético, afundando seu crânio.
OJ sentia seu corpo cada vez mais incandescente. O dínamo interno adjacente ao biocomputador estava perdendo o equilíbrio das energias que mantinham sua quase-invulnerabilidade. Quando um Mega Juicer “saca o cheque”, o efeito é um pouco mais espetacular que os demais tratamentos. Não, agora não! OJ pensava, ofegante.
O estalo de ossos quebrando veio da limusine. OJ se virou na direção.
— NÃO!
O corpo de Hayashi ainda dava espasmos, estava suspenso por um único braço de um ciborgue de conversão total – 90% máquina, salvo alguns órgão internos, coberto dos pés a cabeça por camadas de placas pretas, com sua placa facial imitando um sorriso demoníaco. As risadas de Vinnie entraram como pregos nos ouvidos de OJ… ele as conhecia bem.
— Oswald Jackson — disse o Ciborgue de Combate com uma voz 100% sintetizada , grave como o abismo, intercalada por estalos eletrônicos. — Meu chefe falou muito de você. Principalmente, o frango que você era antes de apelar para o Suco. Somente pobres e fracassados como você tomam esta rota, e como pode ver, este não é o meu caso. Eu tenho patrocinadores.
— CALADO! — gritou OJ. — Ambos vocês!
— Eu vejo que seu tempo é curto — respondeu o ciborgue. — Mas lhe darei a cortesia de saber, que Canivete; veterando com mais de 50 anos de serviço como borg completo, é quem lhe dará o alívio da morte.
— 50 anos de serviço, e ainda usa um nome idiota como esse? — retrucou OJ. Humor negro era sua forma de aliviar a tensão quando tudo ia pro ralo.
— Vou mostrar o porquê deste nome de guerra então, permita-me. — Canivete soltou o corpo do ninja, deixando-o cair como um saco de lixo. Seu braço direito se contorceu em sons mecânicos, revelando um lançador de granadas, embutido em seu corpo. Ele apontou para OJ e disparou uma granada Altamente Explosiva.
Em uma situação normal, OJ era plenamente capaz de desviar, mas seu implante já estava indo para as cucunhas, assim como ele. As energias de seu dínamo interno ainda o manteve largamente inteiro de uma explosão capaz de destruir robôs veiculares. Mas ele caíu de joelhos.
Uma nuvem de poeira o cercava, OJ só conseguia ouvir os passos pesados do monstro cibernético se aproximando, sem pressa. Teve alguns segundos para pensar. Seus amigos morreram antes, isto foi bom. Pois ele temia o que podia acontecer, uma reação em cadeia se ele sacasse o primeiro cheque. Não há glória na morte, apenas o abraço frio vindo literalmente do nada, antes que você possa piscar. Para os pobres mercenários e para Hayashi foi assim. Mas não seria como OJ iria.
— Vai ficar filosofando aí? Ou vai tentar algo, Jackson? — Ou OJ perdeu a noção do tempo em seus pensamentos, ou Canivete era tão rápido e sutil quanto Hayashi para chegar tão rápido, o segundo era improvável.
OJ estava de joelhos se apoiando com um dos braços. Ele tentou se erguer do chão, mas não conseguia de jeito maneira. Ao menos, não sem a ajuda do Suco. Mas, dado o estado de seu corpo, a próxima infusão com certeza seria a última. Se ele queimar para combater Canivete, acabaria deixando o verme vivo, Horek e Hayashi morreriam por nada, assim como ele.
— E eu achando que teria de usar ao menos metade do meu arsenal para te derrubar. Mas uma granada bastou, pelo visto. Nunca pensei que você seria tão fácil quanto o seu amiguinho de merda, com ele, apenas um estalo de dedos foi necessário.
OJ tentou responder, mas até o pressionar de seus pulmões para sair a voz era doloroso, não valia a pena o esforço. É, não havia alternativas, hora de queimar em definitivo!
— Vamos, eu não tenho todo o tempo do mundo. Eu quero um pouco mais de desafio para ter um Mega Ju–
Brilhando como o sol do meio-dia, OJ ascendeu em um gancho com a força de dez demônios, içando o Ciborgue de Combate para o ar. OJ ouvia o estalar de cabos, pistões e mangueiras do pescoço artificial do borg nesses milésimos de segundos. Tudo substituído por seu próprio grito à todos pulmões! O borg caíu a poucos metros de si, com faíscas vindas de seu pescoço, queixo de aço quebrado e olhos vermelhos piscando timidamente.
OJ limpou o dorso da mão ensanguentado em seu rosto, estava cheia de óleo. Sua pele estava brilhando como nunca antes. Toda a energia gerada tentava escapar de seu corpo de uma única vez, gerando uma reação fulminante. Ele conseguia segurar essa reação, mas não sabia por quanto tempo.
Cambaleante, ele alcançou a limusine. Vinnie tentava se afastar, mas uma lasca do para-brisas presa em sua perna o impedia de se levantar e correr.
— Pode fechar esse sorriso! Acabou! — OJ recitou em fúria ardente, a frase que ele havia decorado especialmente para este encontro. Luz incandescente saia de sua boca e olhos.
— Eu… eu sei onde está sua esposa e filha! — Vinnie levantou a mão, gritando. — Maria, e Anna não é? Eu sei onde elas estão–
— Estas são suas últimas palavras, seu lixo?! Uma última pilha de mentiras pra tentar se safar? Ou ganhar mais segundos de vida? — A voz de OJ era tão ardente quanto o seu olhar.
— Não é mentira! Eu conheço cada um dos meus clientes! — Vinnie puxou um antigo celular do pré-Cataclismo. — É só fazer uma chamada e eu consigo localizá-las. É sério!
Nada além das chamas crepitando ferozmente ao redor, e o cheiro ferroso de sangue misturado com fumaça por todo canto era o que OJ sentia por um segundo. Ele… falava a verdade?
Não importa. OJ já sacou o cheque com a conta de seu implante. Ele olhou para o corpo de Hayashi, em seguida de Horek. Tentou sussurrar um último adeus. Não conseguiu.
De seu âmago, toda aquela energia irrompeu consumindo tudo em chamas. O resto das granadas de seu cinto, a limusine, seus amigos caídos, Vinnie, e os vermes que o seguiam. Uma labareda iluminou os céus dos ‘Burbs naquela noite.



