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O Muitos

O-Muitos

— Anatole! — Ele ruge cansado com uma voz grasnada e cospe um pouco de sangue no chão. — Você traiu sua própria espécie, cão imundo. Você traiu sua própria gênese!

Engraçado ouvir aquilo. Olhei ao redor e cheguei a quase reconhecer o ambiente. Eu costumava andar pelas ruas da velha Veneza, principalmente no verão quando meus pais ainda eram vivos. Desde garoto gostava de jogar pedaços de pães aos pássaros enquanto corria e enchia os pulmões daquele fedor de algas marinhas. Uma hora você acaba se acostumando. Hoje, a ruptura da cidade é marcada por estes muros cinza-escuro, que protegem o pessoal lá de dentro de algo que nem eles mesmos entendem.

Este meio segundo de memória me custou um dente. Atlas voou na minha direção como um míssil, estourando um soco na minha boca com sua mão envolta em uma luva de pedras. Cuspi meu dente solto, enquanto lentamente crescia outro em seu lugar. Ele riu. Estava mais capenga do que eu, pois ainda não sabia como se regenerar. Eu já havia feito aquilo diversas vezes, treinando com facas e pulando de prédios altos sem ativar meu vôo. Era só prender a respiração e fazer força, que os ossos voltavam para o lugar e os tecidos se refaziam. Só que isso cansa, e cansa muito. 

Atlas flutuava mantendo certa distância, enquanto uma aura gravitacional distorcia o ar ao seu redor fazendo alguns escombros flutuarem. Ele me observava, talvez tentando ter uma pista sobre como funcionava meu poder de regeneração.

— Não sou eu o traidor, Atlas.Você perdeu sua essência. Se esqueceu que um dia já fomos humanos, que seus pais foram humanos, seu irmão, a Cristie. — Ao ouvir o nome dela, ele hesitou.

— Eu não me importo mais, Anatole. Na verdade acho que nunca me importei. A humanidade sempre foi fraca, como baratas cavando na bosta em busca de algo que lhe fizesse parecer forte, e para que? Para PISAR nos seus semelhantes, Anatole. Para PISAR! O mundo está se desintoxicando da humanidade, e eu vou acelerar o processo.

Louco. Um motivo esdrúxulo para justificar suas carnificinas. Eu decidi que bastava. Um estrondo marcou a continuidade da batalha. Cada soco desferido encontrava o corpo do outro com um ribombar, que ecoava nas ruínas da cidade enquanto rajadas de vento levantavam poeira. Um golpe acertou de jeito e pegou Atlas desprevenido, lançando-o contra a janela de um prédio a uns trezentos metros de distância. Não vi o corpo saindo pelo outro lado, o que significava que Atlas estava ali dentro, consciente ou inconsciente. Esperei por alguns segundos.

O maldito apareceu, com a mão direita limpando restos de vidro do seu uniforme negro de hipergrafeno. Na sua mão esquerda, segurava um menino pelo braço. O corpo franzino era de uma criança de no máximo dez anos de idade, cujo rosto desaparecia dentro de uma bola de pedra que envolvia sua cabeça. Ele se debatia, provavelmente lutando para respirar.

— Vamos ver o quão longe você está disposto a ir, Anatole. — Disse Atlas sorrindo sadicamente. 

— Ele não faz parte disso, Atlas. Solte-o imediatamente!

Atlas zombou, puxando o menino para sua frente e usando-o como escudo. O tempo era curto. Uma aproximação a esta distância daria tempo suficiente para Atlas executá-lo. Meu peito queimava de ódio e poder, como uma usina nuclear prestes a explodir. Minha respiração ofegante liberava um pouco da energia retida, me fazendo transpirar uma leve fumaça verde pela boca e olhos.

— Não. Não aqui. —  Aquilo era minha última jogada. A carta na minha manga, meu último trunfo. Isso porque pensei que a cidade estava vazia. O que um garoto faz nessa porra de ruína? O conflito de ímpares para tentar comer as migalhas que o Domo deixava para trás não era novidade. Sempre houve uma disputa de territórios pelos Ermos, mas eu nunca quis dominar nada. No final era tudo por poder. Não adianta ser fodão em um lugar onde você não tem ninguém para dominar. Por isso alguns ímpares tentavam reconstruir cidades e torná-las lugares seguros, angariando cada vez mais súditos. Este era o plano de Atlas.

— Por que hesitas, Anatole? — Atlas provocou sacudindo a criança pelo braço. — Seu coração ainda sangra por estes vermes?

— Não é por fraqueza, Atlas. É por escolha. E eu escolho não ser como você: um lixo ou resto do que um dia eu mesmo fui. — Falei com dificuldade, engolindo minha saliva e sentindo a energia pulsar para fora da garganta. Tossi e não consegui segurar.

O primeiro efeito da explosão é cegar a quem estiver no raio de visão. Depois, você consegue ouvir os primeiros milésimos do ribombar e fica surdo no mesmo instante. A matéria do corpo é desintegrada em seguida, e isso não causa dor. É uma morte suave, perfeita e limpa, a não ser pelos escombros ao redor. Atlas era para ser minha última cópia perdida por aí, e eu estava prestes a derrotá-lo de uma vez por todas. Mas tive que me multiplicar, uma última vez, antes de me autodestruir. Desdobrei em uma nova cópia que era uma versão exatamente igual ao Atlas, e ordenei que criasse um casulo de pedra ao redor do garoto, protegendo sua vida da autodestruição do meu corpo original. Assim, transformei o antigo Atlas em fumaça, mas criei outro dele, que dentro de alguns dias irá se voltar contra mim e contra a humanidade, reiniciando a porra toda. Destruirei até a minha última cópia e finalmente abandonarei meu codinome.

Anatole Martan, o Muitos.

 


Oddcell é um universo de RPG que aborda um planeta Terra em 2048, devastado por uma guerra nuclear sob resquícios de um vírus que transformou pessoas comuns em seres dotados de poderes inimagináveis. Acompanhe o site e fique por dentro das novidades. oddcell.com.br

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