Lá pras bandas do Quilombo de Araça
Todo aquele que chega ao Quilombo do Araça há de notar a grande e imponente gameleira, mas são as centenas de trapos e penduricalhos em seus galhos que mais chamam a atenção daqueles que passam.
Entre os quilombolas ela é chamada de árvore mãe das promessas não cumpridas. Reza a lenda que toda vez que alguém dá palavra e não cumpre um novo galho cresce e que assim, ela guarda toda sorte dos acordos quebrados e das promessas não cumpridas.
Para retornar à amizade com os Orixás, muitos que ali chegam deixam em seus galhos contas, guias, cordões, colares, braceletes e muitos outros adereços de estima.
Mas a presença da Gameleira, de olhos invisíveis que dia e noite espreitam aqueles que chegam e partem, carrega um fardo mais sombrio. Corre de boca em boca que a velha árvore é capaz de roubar pedaços da alma dos que faltam com a palavra, mirrando seus espíritos e apartando-os para sempre dos Orixás.
Certa vez, Tatá Tião contou que o doido que vagueava pelo cemitério, tilintando guizos e entoando mandigas antigas, cobrindo-se das cinzas dos mortos, já fora um cabra da peste trapaceiro. Sua alma, diz-se, foi toda tragada pela Gameleira, e ele próprio, em noite de luar, foi engolido pelo tronco, nunca mais deu fé, nunca mais foi visto.
Se é verdade, ninguém se afoita a dizer, mas quem olha com cuidado, chegando bem pertinho do tronco, jura ver, entre as rugas da madeira, os dedos magros, como aviso da sina que espera os mentirosos.