O café estava morno, um insulto para Ortega que fez uma careta durante o primeiro gole. Pensou em cuspir a bebida, mas isso chamaria a atenção. Contrariado, colocou a xícara sobre a mesa e continuou olhando para o outro lado da rua. A vidraça suja da cafeteria separava Ortega do movimento diurno da Zona Portuária, com seu tráfego intenso de carros e caminhões e estivadores com passos apressados.
Do outro lado da rua, seu alvo lia o jornal. O homem era surpreendentemente medíocre: uns sessenta e poucos anos, cabelos grisalhos e bem arrumados, óculos de grau grandes, e vestindo um terno de linho bege que parecia confortável demais para o dia quente e úmido da cidade. Ele trocou algumas palavras com o jornaleiro, que lhe devolveu um sorriso cordial. O velho era o estereótipo do “cidadão comum”, disfarce perfeito para o Confidente.
Ortega apertou a xícara, sentindo sua aliança ranger sobre a superfície da louça. Lembrou de tantos nomes usurpados, tanta gente extorquida e tantos segredos pulverizados nas mídias sensacionalistas. Ninguém ousava tocar no nome “Confidente” e o foco ficava apenas nos escândalos. Os jornalistas faziam questão de fingir que ele não existia, mas se deleitavam com os resultados das extorsões que terminavam mal para figurões do poder. Era como jogar farelo aos porcos e vê-los rolar na lama.
A Agência oferecia contratos milionários pela cabeça do Confidente, mas poucos queriam caçá-lo. Era só cometer um erro, por menor que fosse, e estariam na lista negra dele. E ninguém (absolutamente ninguém) tinha o passado ou presente livres de segredos inconfessáveis. Este era o legado que blindava Confidente. Ele sondava silenciosamente os pensamentos das vítimas e descobria seus segredos mais profundos através de uma telepatia fina e limpa, livre de assinaturas psíquicas. Depois fazia uma investigação meticulosa para levantar provas e criava um dossiê completo das merdas que jogariam seu alvo na rua da amargura, ou (na melhor das hipóteses) na cadeia. A conta final era fechada e apresentada à vítima, com o preço do silêncio. Foram celebridades, políticos, megaempresários, chefes do submundo. Ninguém estava livre dele. Ortega também estava na lista do Confidente e naquele momento, quem estaria na mira de quem?
Ortega estava desconfortável, tremendo como se fosse sua primeira investigação no primeiro dia de academia de polícia, embora já estivesse quase se aposentando. Passou a mão no rosto e afagou o bigode, enquando com os olhos estreitos, observava o homem há pouco mais de trinta metros de distância. Uma única rua o separava do alvo, e poderia lhe salvar do tormento de ter seus segredos revelados, ou ter que pagar uma quantia que nem todas as economias da sua carreira na polícia poderiam cobrir.
— Mais café? perguntou a garçonete carregando um bule de vidro bem quente e esfumaçante.
— Não, obrigado — Ortega respondeu sem virar o rosto, ainda com o olhar fixo no Confidente. Ele não se deu conta de que estava bebendo café morno sem reclamar.
Fez uma careta e pensou sobre como pôde ser tão burro. Poderia ter ido atrás do Confidente muito antes de ser chantageado, e poderia ter franqueado uma porcentagem do contrato oferecido pela Agência. Numa hora dessas estaria com dinheiro, tirando férias em Neo-Salém. Agora estava dividido entre matar um homem à sangue frio no meio da rua, sem explicação alguma, ou esperar por uma oportunidade melhor e arriscar perdê-lo de vista.
Nada na sua vida tinha mais importância do que sua carreira, sua esposa Vilma, e uma antiga Glock 17 que havia recebido com honrarias ao se tornar delegado oito anos atrás. Naquela época ele trabalhava no setor de investigação de crimes relacionados à Ímpares, um escritório da polícia ligado diretamente ao Esquadrão Oncogene. Foi ali que o nome de seu cunhado Henrique apareceu nos relatórios. O Irmão de Vilma, sempre idealista, estava ligado aos Tecnoborgs com uma longa lista de delitos, tais como tráfico de informações, quebra de assuntos sigilosos, vandalismo e outros. Henrique era um Ímpar de Potencial 1, e sua filiação ao sindicato do Martelo fez com que Ortega o encontrasse com certa facilidade.
A última vez que Ortega viu o rapaz foi num galpão abandonado ali perto, que talvez já nem exista mais. Naquele dia, a chuva ecoava no telhado de zinco como uma bateria de escola de samba. Lá dentro, Henrique estava amarrado numa cadeira, com o rosto inchado e quase irreconhecível. Quando Ortega se aproximou, Henrique cuspiu sangue no rosto dele em resposta às tantas perguntas que seu cunhado lhe fazia. Ortega precisava de informações: nomes, rotas, locais, mas Henrique era uma pedra selada e muda. Quando Ortega finalmente saiu do galpão, Henrique já não respirava mais. Vilma acreditou até o momento que o irmão simplesmente desaparecera, vítima da violência da cidade ou pego em uma emboscada por um dos tantos grupos rivais. Ortega regava esta mentira diariamente com afeto e flores.
O Confidente virou a página do jornal. — Maldito! — Ortega xingou entre os dentes de modo inaudível. Pensou que talvez o Confidente pudesse lhe ouvir mentalmente, mas logo invalidou a hipótese. Ele estava a uma distância segura e, se o velho pudesse ouvir sua mente, certamente já o teria descoberto. Talvez ele tivesse outros poderes na manga, algo não catalogado nos relatórios, mas um Ímpar com um poder tão forte, raramente tem outros desdobramentos.
Vilma. Ela não podia saber de nada. Que tipo de monstro Ortega seria para a própria esposa? Já tinha passado da hora dele eliminar o alvo. Mas como? O homem parecia tão relaxado, tão exposto que qualquer um que conhecesse sua fisionomia poderia tê-lo mandado pra vala. Talvez ele soubesse de tudo. Talvez ele estivesse lendo a mente de Ortega ali mesmo, desde o momento em que ele chegou na cafeteria. Talvez fosse uma armadilha. Tinha que ser.
O celular de Ortega vibrou no bolso. Com o susto, ele quase deixou o aparelho cair, mas o segurou firme e colocou sobre a mesa. Um número privado. As mãos do delegado tremiam, o coração martelava tão forte que quase dava para ouvi-lo. Ele tirou os olhos do aparelho vibrante e olhou de novo pela vidraça.
O Homem lá fora dobrou o jornal cuidadosamente, e o colocou ao seu lado no banco. Então, lentamente ergueu a cabeça e se inclinou para olhar diretamente para a cafeteria. Seus olhos flagraram os de Ortega. Não havia surpresa nos olhos do Confidente, apenas uma calma terrível. Em seguida o homem ergueu discretamente um aparelho de celular e balançou, como se convidando Ortega a atendê-lo. Sem deixar de olhar para ele, Ortega deslizou o dedo sobre a tela e levou seu aparelho até a orelha.
— Delegado Ortega — a voz do outro lado era polida e suave, batendo exatamente com o visual do homem no banco. — Não se preocupe, pois sua aposentadoria em Neo-Salém não será comprometida. Nosso negócio não envolve dinheiro.
Ortega permaneceu mudo olhando para o homem do outro lado da rua, que lhe encarava de volta com um leve sorriso no canto da boca.
— Sabe, seu caso foi o mais interessante da minha carreira — continuou o Confidente. — Fui contratado para encontrar um homem desaparecido. Henrique. A cliente… bem, ela tinha um palpite de que a resposta não estava na criminalidade comum.
Em choque, Ortega deixa cair seu telefone. Com a mão no peito, desabotoou alguns botões da gola da camisa para tentar respirar melhor. As mãos tremiam tão forte que ele desejou não estar ali. Olhou ao redor para ver se alguém o tinha notado. A garçonete, os outros cinco clientes aleatórios sentados nas cadeiras, o balconista que enchia mais um bule de café. O cheiro forte de pães e café aromatizava o ar denso que embargou a garganta de Ortega.
— Ela pagou muito bem — a conversa agora continuava na mente de Ortega enquanto ele olhava para o aparelho caído no chão, ainda com a chamada ativa. — Ela só queria saber, e agora ela sabe.
A voz fez uma pausa, saboreando o momento. — Não se preocupe com besteiras como carreira e dinheiro, delegado. A desonra pública não me interessa. De verdade. A única coisa que sua esposa Vilma queria era o prazer de vê-lo destruído pela vergonha. Era vê-lo viver com o peso esmagador do desprezo.
O homem se levantou do banco, ainda com o celular na orelha.
— Mas um homem morto não sente vergonha, não é mesmo, delegado? Sua morte seria… — ele faz uma pausa inquietante. — uma decepção para Vilma. A única maneira de negar-lhe a vitória final. Pense nisso.
A voz silenciou. Ortega olhou depressa para o chão e viu a ligação finalizada no celular. Abaixou-se, pegou o telefone e o pôs no bolso do paletó. Em seguida voltou-se para a vidraça procurando o Confidente.
Pôde ver ainda um vulto do homem se misturando na multidão, tornando-se novamente um qualquer e desaparecendo.
De volta ao seu apartamento, Ortega se vê sozinho sentado na sala atrás de um copo de whisky, passeando com os olhos por uma estante cheia de porta-retratos. Nelas, Vilma lhe sorria de diversas maneiras. As lembranças dançavam entre as fotos, trazendo de volta um passado que parecia arruinado. Com os olhos marejados, Ortega abre um pequeno sorriso enquanto observa, dá uma golada final no seu whisky e se entrega para um sorriso largo e aberto, contrastando com os olhos apertados e transbordantes. Secou as lágrimas com o dorso da mão e arremessou o copo contra o móvel, arrebentando o vidro e diversos retratos. Olhou para o chão coberto de malas de roupas que Vilma deixou para trás por não conseguir carregar. Levantou-se, foi até a escrivaninha e folheou um caderno antigo, procurando por uma folha limpa. Arrancou a folha e puxou uma caneta do bolso de dentro do paletó, dando um clique nela com o dedão.
Embora tenha pensado durante vários minutos, planejando longos pedidos de desculpa e declarações de amor, Ortega apenas escreveu “Eu te perdoo”.
A mensagem assinada ficou sobre a mesa, e foi salpicada de vermelho após o estampido de uma velha Glock 17.
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